Por Vitor Pereira
Juliano Cazarré voltou aos palcos com “Compliance” e não apenas voltou, ele se despiu de qualquer conforto.
Num monólogo intenso, visceral e incômodo, ele interpreta Fabrício, um executivo que mistura frases de autoajuda com desespero existencial, e que decide abrir uma transmissão ao vivo para contar o que o levou ao limite. O espetáculo, escrito e dirigido por Fernando Ceylão, é uma daquelas experiências que deixam a plateia em silêncio não por tédio, mas por choque e reconhecimento.
Porque, no fundo, todos conhecemos um Fabrício.
Aquele profissional que aprendeu a vestir um sorriso treinado, a repetir “mente milionária” e “executa e vai” enquanto desaba por dentro.
Vivemos na era dos coaches de si mesmos, dos “empreendedores da própria alma”, e “Compliance” joga luz nesse teatro da performance, onde o sucesso é um personagem, e a sanidade é o preço.
O espetáculo é cruel.
Cruel porque revela o que há por trás da palavra “meritocracia”: o medo de fracassar, o peso de parecer suficiente e o desespero de ser esquecido.
Cruel porque mostra que, em algum momento, o passado cobra e nem sempre vem com a intenção de reconciliar.
Cruel porque, enquanto assistimos Fabrício perder tudo, a sensação incômoda é que ele somos nós, diante das câmeras, tentando justificar o que se tornou da nossa própria humanidade.
“Compliance” é sobre poder, sim mas também sobre culpa, aparência, e sobre essa geração que transformou o “preciso ser admirado” em vício.
Assistir à peça é como se olhar num espelho que não mente: o reflexo é distorcido, mas familiar.
E talvez essa seja a genialidade do texto e da atuação de Cazarré ao fazer o público rir do que o destrói, e pensar sobre o que o faz repetir.

Saí do teatro com a sensação de que “Compliance” não é apenas uma peça sobre um homem em crise, mas sobre uma sociedade em colapso emocional.
Vivemos tão preocupados em “performar bem” que esquecemos o que é simplesmente ser.
E no fim das contas, talvez o que mais nos apavore não seja o chefe, o algoritmo ou o julgamento dos outros, mas a possibilidade de encarar o que há por trás da nossa própria transmissão ao vivo.
E você, quantas vezes já se viu fingindo controle enquanto tudo dentro gritava por socorro?
Vai lá assistir. E depois compartilhe comigo o que você achou.
