Por Vitor Pereira
O ministro Luís Roberto Barroso anunciou que deixará o Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo mais uma vaga na mais alta Corte do país. A decisão, que já era esperada nos bastidores, devolve ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o poder de escolher quem ocupará uma cadeira essencial em um tribunal que molda o destino político, jurídico e social do Brasil.
Mas, desta vez, a escolha carrega um peso maior do que a simples substituição de um nome por outro. Ela representa uma chance histórica de corrigir um erro que dura 134 anos: o Brasil nunca teve uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal.
De 1891 até hoje, mais de 170 ministros já passaram pelo STF. Apenas três foram mulheres, Ellen Gracie, Rosa Weber e Cármen Lúcia, e todas brancas. Nenhuma mulher negra jamais chegou a esse espaço.
Em um país onde mais de 28% da população é composta por mulheres negras, isso não é coincidência. É reflexo de um sistema de poder que sempre privilegiou as mesmas vozes, os mesmos rostos e as mesmas histórias.
E é por isso que, diante da saída de Barroso, entidades da sociedade civil têm se mobilizado para pressionar Lula a fazer uma escolha que represente o povo brasileiro em toda a sua diversidade. Movimentos como o Mulheres Negras Decidem, a Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos e o Fórum Justiça têm pedido ao presidente que indique uma jurista negra. Mais do que uma demanda política, é um ato de reparação histórica.

Quando uma Corte é composta majoritariamente por homens brancos de classe alta, o olhar sobre temas como violência policial, desigualdade racial, direitos reprodutivos, moradia e acesso à justiça tende a ser distante da realidade da maioria da população.
Ter uma mulher negra no STF é abrir espaço para que novas perspectivas entrem no debate jurídico, trazendo consigo experiências que o Brasil insiste em calar. É permitir que as decisões do Supremo contemplem não apenas o texto da lei, mas também o sentido de humanidade que deveria sustentá-la.
Lula tem em suas mãos a oportunidade de fazer história novamente. Assim como indicou o primeiro ministro negro do STF, Joaquim Barbosa, em 2003, agora pode ser o presidente que nomeou a primeira mulher negra para a Corte.

Entre os nomes sugeridos por entidades estão Edilene Lobo, advogada e professora de direito eleitoral; Sheila de Carvalho, advogada de direitos humanos; e Vera Lúcia Santana Araújo, jurista e ativista antirracista. Todas competentes, todas capazes, todas prontas para ocupar o cargo.
Chegou a hora de mudar a imagem do STF.
Não se trata apenas de quem sentará na cadeira deixada por Barroso, trata-se de quem o Brasil quer ver representado ali.
Porque quando uma mulher negra ocupa um espaço de poder, ela não entra sozinha.
Ela leva consigo todas as vozes que, por séculos, ficaram do lado de fora.
E você, o que pensa sobre isso?
O Brasil está pronto para ver uma mulher negra no Supremo Tribunal Federal?
